quinta-feira, abril 27, 2006

Visões

Ao subir as escadas que dão acesso aos SMAS de Leiria, vulgo Serviços Municipalizados de Água e Saneamento, chego à recepção . Ao passar uma barreira invisível acciono um som de campaínha que alerta o recepcionista da chegada de alguém.

Eu apenas queria uma informação sobre a localização do DEO, Departamento de Equipamentos e Oficinas, que me tinham informado ser perto dos SMAS.

Para meu desalento, o senhor disse que não sabia onde ficava nem tinha a certeza de que departamento da Câmara se tratava:
- Olhe, não estou a ver onde fica. É possível que seja junto aos armazéns, na Guimarota.

Nada de especial teria esta frase, não fosse aquele homem invisual.

quarta-feira, abril 19, 2006

Evacuação

As repartição de finanças devem ser das instituições com melhores tempos de evacuação de todo o seu pessoal. Talvez realizem simulacros com alguma frequência para treinar o pessoal a reagir a certos sinais de aviso. Se calhar há acções de formação para os funcionários saberem estar atentos aos pormenores importantes e dispensarem os detalhes supérfluos.

O segredo parece-me ser o seguinte: anunciar claramente uma tolerância de ponte parcial, só tarde, e especificar uma hora de saída. Estes dois factores cruciais parecem estar na origem deste êxito fenomenal. Se o horário de fecho é às 12:30, às 12:35 já não se encontra vivalma nas instalações da repartição. É verdadeiramente impressionante! Digno de mais um record luso no livro do Guinness.

terça-feira, abril 18, 2006

Aniversário

À um ano o conclave deliberava e viu-se fumo branco.
À um ano comecei a trabalhar em Lisboa.
À um ano a minha mãe fazia anos. Hoje também, mais um.

Durante a tarde apareceram algumas pessoas para cumprimentar a minha mãe e dar-lhe os parabéns. A prenda que mais despertou as atenções foi um canário amarelo claro oferecido pela Rosária Galhofa e pela Filomena.

Já tinha aqui uma gaiola por ter tido um passaroco idêntico até ter sido comido pelo gato. Pôs-se-lhe comida, que o bicho espalha alegremente pelo chão, e água e já está todo feliz aos saltinhos de poleiro em poleiro (parece um político) e até já canta, porque é um verdadeiro macho... é mesmo!

Falámos de animais que são oferecidos e que duram muito tempo, como um cágado que a Inês Alves recebeu quando ainda tinha 10 anos. Agora já está na faculdade e tem o dobro da idade e o cágado ainda por lá anda.

O que é engraçado é que eu me lembro do dia em que ele foi para lá. Eu e o meu irmão brincávamos com os gémeos Joel e André, irmãos da Inês, principalmente com a Mega-Drive. A Inês era uma miudinha que andava por lá, praticamente desconhecida para mim na altura, uma boa amiga agora e colega na filarmónica.

O curioso foi uma conversa simples ter despertado de uma forma bastante viva uma memória que parecia já há muito esquecida de um momento sem grande importância recordativa.

domingo, abril 16, 2006

Pedalar

A minha bicicleta tem tido mais uso pelo meu irmão que por mim. No entanto, para contrariar essa tendência, aceitei prontamente o convite do Nuno para uma volta calma em direcção à praia de S. Pedro de Moel.

De carro fomos até à Marinha Grande e daí, pelas ciclovias, até à praia, por caminhos de ida e volta diversos. Eu não gosto muito de fazer duas vezes o mesmo caminho. Se puder diferenciar, principalmente se não conhecer os caminhos, tanto melhor, pois passo a conhecê-los.

Bastantes eram as pessoas que se cruzavam connosco naquela via segura dos automóveis. Muitos de bicicleta e bastantes a pé, a andar ou a correr. Ao fim de duas horas era tempo de ir para casa almoçar e descansar.

Ontem, retomando o exercício, meti-me na bicicleta até Leiria. Fui apreciar as obras que estão a ser finalmente feitas ao abrigo do programa Polis numa boa parte da margem do rio Liz, com a construção de alguns parques, pontes pedonais e um percurso de alguns quilómetros que atravessa a cidade junto ao rio.

Na zona da Guimarota, perto da DVG de Leiria, estão a construir um parque interessante com bastantes rampas feitas em cimento para skaters e um parede de escalada de três faces com cerca de 10m e altura. A relva já cresce e as plantas já ganham raízes. A iluminação tem a vertente em altura com os candeeiros e a partir do solo com as luzes incrustadas no solo no meio do caminho a fazer de eixo da via. Como é moda agora, a jardim não é plano, mas tem aqueles montes de terra que criam recantos e locais privados e também uma dor de cabeça acrescida para quem tem de ali cortar a relva.

Seguindo vi o calcetamento da rua que vai da Av. Nossa Sra. de Fátima até à ponte dos caniços e que tem estado fechada ao trânsito à bastante tempo. Vai ficar mais estreita para que tenha um passeio de cada lado.

Depois uma ponte pedonal um bocado estranha. Uma ponte de ferro, larga com corrimões tapados até ao chão. Como era muito larga, desenharam um caminho estreito ziguezagueado como um rio num vale, visto que encheram de cimento os cantos da ponte, subindo-se desde o "caminho ziguezagueado" até ao topo do corrimão, inutilizando toda a função de segurança do corrimão, dado que qualquer criança pode subir aquelas rampas e, aí, decidir atirar-se ou não da ponte abaixo. Para além disso, as vigas horizontais na extremidades do tabuleiro denotam já uma curvatura, diria eu, anormal, dado o peso da absurda quantidade de cimento para um mero efeito decorativo.

Visto isto, já começavam as dores nas costas e no pescoço, por irem as costas dobradas para a frente e o pescoço para trás para se ver o caminho. Então, em tom de desafio comigo mesmo, fui até casa com as costas direitas na bicicleta, empregando o piloto automático (sem mãos no guiador), mas sempre, sempre a pedalar.

quinta-feira, abril 13, 2006

Pequenos em grande

Nos dias 7, 8, 9 e 10 fez-se a actividade conjunta dos lobitos dos agrupamentos de Sto. Agostinho e Sé, ambos de Leiria. O local escolhido foi a zona militar ribeirinha de Almourol, entre Tancos e Constância.

No seguimento de actividades anteriores, sempre na temática escolhida para este ano para esta secção: "Os Incríveis", os lobitos eram agentes secretos desde que um agente secreto os nomeou durante a actividade incluída na peregrinação a Fátima, dando-lhes os respectivos cartões. A próxima missão era salvar a família Incrível do terrível Síndrome e o destino, marcado no bilhete (de comboio) Tancos.

Quando chegaram à estação viram um rasto de um veneno luminoso, supostamente do Síndrome, e que acabava numa central eléctrica. O vilão dependente da tecnologia teria aqui a sua fonte de energia para a sua nave e talvez tenha fugido.

No entanto era preciso ir até ao Castelo de Almourol para salvar a família Incrível. Quando eles lá chegam vêem o hastear da bandeira de Portugal no cimo do castelo e depois encontram um CD com uma mensagem do Sr. Incrível a dizer que a família incrível já estava sã e salva graças à ajuda dos lobitos.

Em resumo estas foram as linhas mestras da actividade. Para quem a preparou houve bastante mais a ter em conta. Reuniões de preparação para discutir o enquadramento dos jogos na temática, visitas ao local para falar com as diversas entidades para saber as condições de alojamento, pontos de água, refeições, actividades extra, distâncias das caminhadas, estudar o tempo de articulação entre as várias propostas. Nos próprios dias da actividade haviam membros da equipa Arco-Íris (chefia) que ficavam em campo a preparar algo para quando os lobitos regressassem.

Eu fui com a Ana da Sé mais cedo, de carro, para:
1. verificar as condições do terreno para acampar (chão ligeiramente molhado e os lobitos chevam perto das 22h de comboio), a casa dos pastores era apertada e o telhado com muitas gretas (complicado para acantonar com lobitos caso chovesse como era previsível), por isso, solicitar que pernoitássemos no Casal do Pot, complexo militar abandonado e em avançado estado de degradação, mas onde o Oficial de Dia descobriu uma divisão ideal para toda a alcateia.

2. confirmar a nossa presença em território militar (que fizemos assim que ele nos viu).

3. contactar a padeira mais próxima para nos abastecermos nos dias da actividade. Foi em Barquinha e a senhora Marianete mostrou-se bastante prestável com o seu riso invulgar. Às 7h da manhã lá estávamos todos os dias para levar mais de 100 pães.

4. marcar o percurso do veneno luminoso do Síndrome (Flash Lights que se iluminavam quando os dobrávamos e os dois líquidos internos se misturavam) desde a estação de Tancos até à central eléctrica, com oito luzes. E vimos que aquele percurso demorava cerca de 15 a 20 minutos a pé, porque a Ana fê-lo enquanto eu dei a volta de carro até à central.

No Sábado saímos do Casal do Pot, para acamparmos numa zona com vista para o castelo até ao fim da actividade. Enquanto todos foram ao raid eu fiquei pelo acampamento para ajudar a arrumar algum material. Mas isso foi num instante e aproveitei para ir a pé até perto do castelo por um atalho que me perguntava onde iria ter, apesar de o Oficial de Dia da Escola Prática de Engenharia me ter informado que aquele caminho não era usado há muito tempo. Sabia que tinha de ir dar a uma passagem estreita por baixo da linha de caminho-de-ferro. Finalmente encontrei-a. Assim que espreitei pela passagem, passou por cima de mim um comboio em grande estrondo. Que grande susto! Mas já ali estava a ver o castelo e ainda bem que o fiz, porque o raid atrasou-se ligeiramente e preferimos fazer a travessia de barco para o castelo no domingo de manhã (assim falei logo com o barqueiro) e assistir aí ao hastear da bandeira nacional, em vez de ser no quartel às 8h como estava previsto.

Esta caminhada foi boa para ajudar a digerir as três postas de cherne do almoço, refeição cozinhada por pais de lobitos que se disponibilizaram a acompanhá-los. Estava muito bom e era mal empregue estragar-se.

À noite foi o momento de olhar para o céu com olhos de ver: no Centro de Astronomia de Constância. Infelizmente o Prof. Máximo Ferreira, aquele que escreve na visão e acompanha o seu texto de um mapa do céu, não pôde estar presente. Infelizmente eu também não. Fui ao Hospital de Abrantes confirmar que um lobito não tinha nada no ombro.

Durante o raid da tarde, enquanto estavam no quartel, ao experimentar um exercício de barras assimétricas onde se deveria saltar de uma para outra mais alta sem escorregar, ele fez isso mesmo e caiu de costas. No hospital, depois da espera desesperante, perante a pergunta simples da médica espanhola: Onde é que te dói?
ele responde: Já não me dói! Apeteceu-me dar-lhe uma pancada no ombro para ao menos ter um motivo que justificasse a ida ao hospital. Mesmo assim, foi tirar um raio-x que foi examinado por um ortopedista (ainda bem que fui ao hospital de Abrantes que no de Tomar, mais ou menos equidistante do local onde estávamos, não havia ortopedia e teria de ir ao de Abrantes na mesma!). Este último, quando não viu nada de anormal, brincou com ele, também Gonçalo: Ouve lá, tu escusas de te andar a atirar para o chão. Senão pareces o Liedson!
A isto, o miúdo depois confidencia-me que nem sequer era do Sporting!

No domingo finalmente a ida ao castelo. Os pontos de atracção foram os patos na margem à espera de pão e com uma dúzia de patinhos, o casal de porcos vietnamitas que o barqueiro levou para a ilha (a par das cabras montanhesas, mas essas de mais difícil observação e escaparam aos olhos dos miúdos), os caminhos pela ilha até ao cimo do castelo, incluindo as íngremes escadas de madeira, o momento solene do hastear da bandeira e, por fim, a mensagem do Sr. Íncrivel. O CD que eu gravei (distorci a minha voz e introduzi uma música de fundo lamecha) e disse que tinham sido os dois tropas que foram hastear a bandeira que o esconderam era para ser ouvido através de um rádio-leitor de CD's. Mas não tinha pilhas! E então, "por acaso" (isto é, de propósito), até tinha ali o carro perto que tinha leitor de CD's e até já estava à beira de um pequeno anfiteatro em escadaria onde todos se sentaram a ouvir mais ou menos convencidos a mensagem do Sr. Incrível.

Seguia-se o momento mais agitado da actividade. Mas antes desse, o mais calmo: a missa de domingo de ramos na igreja matriz de Constância. Quando conseguimos transportar todos os lobitos até à igreja a missa estava mesmo a começar e ficámos espalhados pela igreja. O padre, numa redistribuição hábil, fez toda a gente sair pela porta da frente e reentrar pela principal em cortejo, ficando depois os escuteiros todos juntos, à frente, nós e uns pioneiros de um agrupamento de Lisboa. Mesmo com essa benesse a missa demorou uma eternidade.

Assim que chegaram todos, escuteiros e pais, ao parque de merendas à beira foz do Zêzere no Tejo saciou-se a fome com a muita comida que os pais trouxeram. Sem abusos, que a seguir era para meter água.

Dividindo-se toda a comitiva em dois fizeram-se duas actividades: descer de canoa o rio Zêzere a jusante da barragem de Castelo de Bode e visitar o Centro de Astronomia de Constância. Depois trocavam. Eu acabei por não ir novamente ao Centro de Astronomia, por na primeira fase ter ido levar a carrinha já sem canoas até Constância e na segunda ter descido o resto do rio até quase ao Tejo. Esse era, aliás, o momento mais aguardado. Tanto que enquanto não vinha a malta para fazer a segunda parte da descida do rio eu brincava com as canoas que já tinham chegado. Durante a descida o rio estava extremamente calmo, algumas zonas com pouca água, uma vez tive mesmo de sair e empurrar a canoa em direcção a um rápido e nas duas pontes já perto de Constância havia um pequeno rápido a contornar os pilares, mas nada de especial.

Quando cheguei, deixei os meus passageiros e fui com o meu irmão até ao Tejo. Mas em vez de remoinhos e águas revoltas como seria de supor, bancos de areia em pleno leito do rio e níveis de água em alguns locais que nem chegavam à cintura. O Tejo brando que parecia desposado de qualquer musa de Camões.

À noite, o fogo-conselho. Um momento para termos o feedback dos lobitos em relação ao que mais gostaram, com as peripécias da canoagem a serem o tema predominante. Foi um momento muito engraçado e onde se notou esmero na preparação das peças cómica e séria, apesar do pouco tempo que lhes demos.

Na segunda-feira, já sem alguns membros da chefia, o dia foi mais calmo e resumiu-se a desmontar o campo de manhã e a visitar os paraquedistas de tarde e daí fazer o derradeiro percurso a pé até à estação, minto, apeadeiro de Tancos.

Nos paraquedistas os olhos curiosos absorveram toda a explicação de como funciona um para-quedas, exemplificado ao vivo com um rapaz a accionar os comandos todos e a exemplificar todas as situações. O momento alto foi o disparo do para-quedas de emergência expelido rapidamente pela força de uma mola. Para além desse ponto, a demonstração dos cães de guerra também foi interessante. Primeiro os cães a obedecerem a ordens cada vez mais complexas, depois a atacarem um militar que se passava por malfeitor, mas levava uma protecção no braço para o cão morder à sua vontade que qualquer coisa!

Findo tudo isto puseram-se todos a andar para o comboio com o incentivo/ameaça de que iriam perder o comboio para o Entroncamento e daí para Pombal. Chegaram lá bem a tempo, lancharam tudo quanto lhes demos, e mais comiam se houvesse, que eles estavam bem estafados. Por aqui ficou actividade dos lobitos da Sé e de Sto. Agostinho que terão uma próxima já no Acapatrono nos dias 29 e 30 de Abril. Gostei bastante da actividade e, verdade seja dita, até se portaram bem...

quarta-feira, abril 05, 2006

Cidade

Esta palavra simples tem implícito no seu significado complicação, correria, confusão. Massas imensas de blocos habitacionais onde as pessoas vivem como coelhos, fechadas na sua jaula sem saberem ou sequer se importarem em conhecer quem está ao lado.

A maior oferta de trabalho, bens culturais e outros supostamente compensa a impessoalidade, o stress, a marginalidade. No fundo, a cidade será, em última análise, aquele lugar onde as pessoas estão, até de lá saírem em vivo desafogo em cada fim-de-semana.

Porém, há excepções. Imaginem uma cidade sem filas de trânsito, casas com uma vista desafogada e agradável, pessoas que se conhecem, um sítio onde paira uma calma e tranquilidade saudáveis, sem stress. Agora parem de imaginar...

Dirijam-se às Caldas da Rainha (pode ser pela A8) e daí à freguesia Serra do Bouro (a norte da Foz do Arelho) e finalmente ao lugar da Cidade. Um verdadeiro paraíso!

As culturas agrícolas aguentam-se bem sem rega, talvez pela maresia. As estradas de alcatrão largas desembocam em caminhos de terra batida com menos de metade da largura da estrada de alcatrão a que estão ligados. As pessoas dão indicações do estilo: "Segue até encontrar um largo onde está um velhote sentado num banco comprido à sombra. Depois pergunte-lhe que ele também sabe e dali já é mais fácil."

É uma pequena povoação com meia dúzia de casas, mas está perto das Caldas da Rainha. Tem os benefícios do campo e os da cidade por estar perto dela, sem ter algumas das suas desvantagens. É um local pacato onde dá gosto viver. Assim nem é tão mau viver na cidade!